Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Virgílio Castelo: "O Último Navegador"

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 23.11.08

Iniciar um domingo ameno, cheio de sol, ligar a Antena 2 e dar com uma entrevista magnífica! Virgílio Castelo e o seu “último navegador” (1).


Análise inteligente: caminhámos de um povo solar (Camões) para um povo lunar (Fernando Pessoa). Lembrou-nos que nos comportamos como aquela geração dos vencidos da vida, mas sem as oportunidades que eles tinham (achei graça): eram todos socialmente privilegiados. O que é que nos aconteceu para ficarmos nesta 'vã e vil tristeza'?


O sonho português: Um povo que actualmente funciona um pouco como as crianças, deseja uma coisa como se fosse o Euromilhões (o desejo infantil) e pensa que quando a obtém está tudo concluído. O sonho deve ser um ponto de partida e não de chegada. O sonho deve funcionar como uma alavanca e não como um fim em si. A ideia de que o esforço deve ser continuado, o trabalho nunca está concluído.


A acção: Deixámos de estar dispostos a pagar o preço por um objectivo. Falta-nos a ética do trabalho que os povos protestantes adquiriram. A igreja católica tem sido passiva e cúmplice com o poder. Tem de se ser consequente. Se queremos mudar o actual estado de coisas, temos de agir.


Os complexos de inferioridade: Interessa-me aquele período até ao séc. XIII, em que éramos um povo como todos os outros, havia loucuras, mas não tínhamos complexos. Não tínhamos medo dos gigantes. Lançámo-nos numa aventura sem saber onde iríamos parar... Agora temos medo de tudo, dos papões...


Um povo 'difícil de liderar': Não gostamos de patrões mas gostamos de um chefe, alguém que saiba governar. Só que a condição para liderar é ser aceite pelos cidadãos: os cidadãos têm de o reconhecer como líder. (2)


A democracia por cumprir: No essencial as estruturas do poder mantêm-se. Isto não vai lá com compromissos, mas com rupturas. Uma atitude mais revolucionária do que simplesmente barafustar. 


O lugar de Portugal no mundo: Não quer dizer voltar a ter o poder no mundo, mas ter um lugar no mundo e deixar de ser o porteiro.


No fundo, como diz Virgílio Castelo, é uma provocação.


E também um apelo a nascer, renascer. E não é essa a ideia essencial do Natal?

 

 

(1)“O Último Navegador” foi editado pela Esfera dos Livros.


(2) Foi esta a ideia que consegui apreender.

 

 

publicado às 10:11

Salvos por uma "gaffe"

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 19.11.08

Aviso prévio aos Viajantes: este post é temporário dada a irrelevância do tema, mas... está carregado de significado simbólico.

 

Uf!... Que sorte para o governo e a sua claque mimética (1), e os seus satélites estrategicamente colocados, o jornalismo caseiro e o comentário político doméstico, os sounbytes e megabytes...

Finalmente, uma gaffe!

 

O país pode estar no meio de uma crise de nervos, o caos ter invadido as áreas fundamentais da governação, e eis o Chefe da claque do PS, de breviário na mão, a apontar o pecador!

Que sorte! Esta gaffe bem trabalhada pelos satélites do costume até poderá servir para distrair os portugueses!

 

Já Medina Carreira tinha dito outra frase bombástica na Sic Notícias, mas nessa altura o governo e a sua claque mimética não reagiram. É que sem Economia não há Democracia que resista.  (2)

Ora, num país cada vez mais pobre, com grandes desigualdades sociais, em que as pessoas já estão essencialmente preocupadas em sobreviver, muitas delas fora do país... e os responsáveis a revelar clara dificuldade em governar, que espécie de democracia pensam eles estar a defender?

 

 

 

(1) ... embora aparentemente pluralista e com alguma patine histórica...

 

(2)  Foi a 14 de Outubro no "Jornal das 9" com o Mário Crespo. E disse mais: Um país pobre como o nosso não pode suportar mega-empreendimentos, a política de betão, de coisas que não são prioritárias. Em relação à Educação: Os pais precisam de saber que essa escola [a 'escola inclusiva', de Marçal Grilo] não prepara os seus filhos para nada. Como as Novas Oportunidades, zero. Não se tira um 12º ano em meses. A escola não pode ser um lugar para guardar os alunos, mesmo os que não querem estudar. O melhor que se pode fazer pelas classes desfavorecidas é dar-lhes uma escola de qualidade. Em relação à Comunicação Social: Os senhores trazem aqui políticos e analistas que mantêm esta treta e dizem barbaridades. Os portugueses querem a verdade. Deviam dar voz, em 10% do seu tempo, a pessoas sérias e que dizem a verdade aos portugueses. Em relação aos políticos: Enquanto os partidos que se revezam no poder e que têm de alimentar as suas clientelas, continuarem estas políticas para ganhar votos, o país não vai a lado nenhum. Precisamos de novos políticos, que não precisem da política, que vejam a política como a causa pública, e que digam a verdade e tenham a coragem de mudar as políticas. A estas declarações bombásticas ninguém reagiu. Mas verifiquei que fizeram ressonância no cidadão comum. No fundo, era isso o mais importante. Abrir os olhos do cidadão comum.

 

publicado às 10:51

Para um "novo cidadão" um "novo político"

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 17.11.08

Joe Plumber tinha ficado muito impressionado com o filme Thunderheart e com os nativos americanos. E John Silva também o vira acompanhar atentamente, no Simulador, o discurso do President dos EUA, recém-eleito. Aquela narrativa-síntese na noite da sua eleição deixou-o boquiaberto:

Ainda se falava assim no séc. XXI?

Os povos precisam da sua narrativa, de quem lhes lembre a sua história, a sua identidade. John Silva saboreava esta perplexidade do amigo. Em momentos importantes, antes de grandes mudanças ou grandes desafios, precisam de quem lhes lembre de onde vêm, por onde passaram e para onde querem ir...

Isso fê-lo recordar o seu próprio interesse em acompanhar a narrativa portucalense.

Quando surgiria alguém com uma narrativa assim inspirada? Com uma síntese baseada na sua própria natureza? Com raízes profundas mas também com asas criativas?

John Silva sabia que isso iria depender do cidadão comum.

Por maior que fosse a tentação de intervir, sabia que a história teria de seguir a sua lógica com aquelas personagens.

Pela primeira vez na sua vida funcional... uma sensação calorosa de parte de si mesmo estar ali, ao lado do cidadão comum daquele pequeno país. Parte de si sentia aquele sofrimento, a dúvida, a angústia, a insegurança. Parte de si antecipava os conflitos sociais inevitáveis. Mas nada podia fazer, a não ser apostar mentalmente toda a sua esperança no cidadão comum.

Por isso, a sua mensagem não podia ser mais clara e promissora:

 

O cidadão comum começou, pois, a acordar e a perceber que teria de se responsabilizar pela sua vidinha e pelo futuro dos seus filhos. Era altura de começar a exercer a sua cidadania e exigir respeito pelos seus direitos.

O cidadão comum, ao sentir-se inseguro e desprotegido, espremido e negligenciado, resolveu finalmente colocar-se no papel central do guião do filme.

Se o poder em exercício nem se dava ao luxo de responder às questões que lhe eram colocadas pela oposição na AR!?

E mesmo quando virou o olhar para Belém, também não teve sorte nenhuma. De Belém, a neutralidade conveniente.

 

Assim, ao perceber que, tanto de um lado como do outro, o ignoravam como o actor principal daquele enredo, decidiu acordar, sacudir a poeira (porque foi ele, o cidadão comum, que ficou a comer pó, enquanto os privilegiados do sistema saíram dali airosamente), e exigir que fosse reposta a verdade (o que andavam a fazer com os seus impostos) e defendida a sua dignidade (ver esses impostos investidos nos projectos que geram riqueza e emprego, e protegem a comunidade e os mais vulneráveis).

 

O cidadão comum quis saber tudo. E quis que lhe explicassem, com todos os pormenores, que país andavam a preparar para os seus filhos.

Quis ver respeitados os seus direitos de cidadão-contribuinte-investidor do Estado, quis obter informações claras, ser tratado como um adulto e não infantilizado, quis ver defendidas a justiça e a segurança. E quis ver garantidas a saúde e uma educação de qualidade para os seus filhos.

 

Era altura de avaliar os resultados do poder em exercício mas antes, era altura de uma auto-avaliação.

O cidadão comum percebeu que tinha sido, também ele, responsável, e não só por ter passado um "cheque em branco" a um único grupo político.

O cidadão comum, ao olhar para si próprio, percebeu que também ele falhara: fosse por negligência ("quem é que nos vai ouvir", "não posso fazer nada"), fosse por egoísmo ("a minha casa, o meu quintal, o meu pequeno mundo"), fosse por cobardia  (só refilar, não se envolver, não se comprometer, não agir), fosse por conformismo ("foi sempre assim", "para que me hei-de incomodar").

Havia tiques e traços adquiridos ao longo de anos de paternalismo político.

 

Sim, a verdade sobre si próprio foi a mais difícil de aceitar. Mas era necessário, se queria alterar o rumo da sua vida e construir um futuro viável para os seus filhos.

Este exercício de auto-avaliação deu-lhe uma nova confiança em si próprio e um novo alento.

A verdade é sempre criativa.

 

Para um novo cidadão tinha mesmo de surgir um novo político.

A mudança, já anunciada, começou a surgir da base da pirâmide.

Claro que se estivéssemos à espera que o cimo da pirâmide quisesse mudar um sistema que lhe era favorável ou, pelo menos, que mantinha os seus privilégios intactos, sem grande esforço de meios a não ser conhecer as pessoas certas, bem podíamos esperar sentados...

Foi interessante observar como o cidadão comum se começou a consciencializar e a responsabilizar pelo seu próprio destino.

 

 

publicado às 13:13

Manual de Sobrevivência do Cidadão Comum (cont)

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 14.11.08

John Silva alertou-me para o facto de estar a numerar as suas mensagens quando fazem parte de intervenções diferentes.

Uma, Uma civilização em declínio a parodiar-se a si própria, é um ensaio sobre a cultura portucalense, dos seus antepassados remotos.

Outra, o Manual do Tecnocrata, um estudo sobre as tais "boas práticas" e outras cosméticas, marketing político, manipulação da opinião pública, controle do cidadão comum até à sua domesticação, you name it...

E uma outra, bem diferente, um Manual de Sobrevivência do Cidadão Comum que, contrariamente ao que o título parece indicar, implica uma primeira fase, a mais importante e a mais dolorosa, de uma rigorosa auto-avaliação (do cidadão comum, entenda-se). Olhar para si próprio de forma desassombrada, sem juízos de valor ou qualquer preconceito. E assumir a responsabilidade por si próprio, pois de outra forma alguém decidirá por ele (sobre a sua vidinha, claro!)

 

Assim sendo, vou já retirar a numeração das mensagens para não induzir em erro os visitantes deste lugar.

 

publicado às 14:25

Manual de Sobrevivência do Cidadão Comum

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 13.11.08

Joe Plumber começou a estranhar esta quase obsessão do amigo pelo seu passado  histórico e cultural. Ainda por cima tão longínquo...

A que se devia aquele fascínio por um pequeno país, naquela fase de transição, no início do sé. XXI?

Governado por tecnocratas... justificou John Silva.

Sim, mas porquê todo esse interesse por uma forma primitiva de democracia, em que as pessoas têm de sair à rua para ser ouvidas?

Porque, embora primitiva como dizes, essa forma de democracia tinha muitas potencialidades.

 

Sim, John Silva sabia. Já viajara com o Simulador vezes suficientes e coleccionara episódios suficientes para saber...

Nesse dia, após voltar a observar os discursos dos tecnocratas da época, resolveu mostrar um filme ao amigo. Talvez assim ele pudesse compreender...

O filme era fascinante e tocara-o numa corda sensível que ele até nem imaginava existir! Como quando nos exercitamos após muito tempo de sedentarismo e descobrimos dores em músculos que desconhecíamos.

Talvez toda a dessensibilização cultural a que várias gerações tinham sido submetidas não tivesse sido assim tão eficaz!

Pessoas são pessoas. Não são máquinas. Nem são números, como pensavam os tecnocratas da época.

Sorriu enigmaticamente e gravou na bainha da t-shirt, num botãozinho minúsculo, o filme Thunderheart.

 

Quando Joe viu aquelas imagens halográficas no ar e ouviu aqueles sons arranhados, de cortar a respiração, ficou hipnotizado. Então eram assim os verdadeiros nativos americanos? Um cabelo muito liso e brilhante, cânticos inspirados, rituais antiquíssimos... Gente habituada à liberdade nómada, agora confinados a territórios inférteis e rochosos, à pobreza extrema, a todos os obstáculos e injustiças...

Mas o que mais o fascinou foi o confronto com a ficção que o F.B.I., a que Crow Horse designou, sarcasticamente, de Federal Bureau of Intimidation, queria fazer passar pela versão verdadeira.

Acenaram-lhe com a lei, até mesmo aquele rapaz, descendente de antigos heróis índios, já domesticado pelo sistema.

Mas Crow Horse respondeu-lhe à letra:

Jurisdiction is all you've got!

Quando não há argumentos, vem a lei. Mas a lei é, realmente, tudo aquilo que eles têm na mão.

 

John  movimentava as imagens no ar com ligeiros toques no botão da t-shirt.

Joe estava deslumbrado com toda aquela cor a esvoaçar à sua volta, aqueles sons que preenchiam tudo e insinuavam-se debaixo da pele e, perto do final, aquele bater ritmado de um coração universal!

This land is not for sale!, diz o rapaz aos ficcionistas de serviço.

Joe gostara sobretudo daquele momento e pedira ao amigo para o repetir várias vezes, aquele bater do coração e a voz do rapaz: This land is not for sale!

As imagens envolviam-nos completamente, já estavam rodeados daquele céu incrivelmente azul, os enormes rochedos avermelhados, a comunidade de índios em círculo...

 

O rapaz vencera o conflito interior entre a rebeldia e a domesticação. Um caminho nada fácil de percorrer. Sobretudo porque fora educado para negar as suas origens. Fora programado para esquecer a sua natureza. Mas as suas raízes estavam lá, toda a memória de um povo.

É preciso ter coragem para escolher o caminho da liberdade, comentou Joe, de olhos a brilhar.

Sobretudo quando o preço a pagar é elevado. John sabia, das suas viagens com o Simulador, quantas pessoas tinham sofrido pelos direitos mais básicos. Por valores mais elevados do que a sua simples sobrevivência... pela sua comunidade...

Joe estava sobretudo fascinado por esses tempos em que ainda era possível lutar e sonhar...

 

publicado às 14:51

Do Manual do Tecnocrata: como manipular a opinião pública

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 12.11.08

John Silva de novo em linha! O Simulador lá transmite nova mensagem:

 

Este é um dos princípios em que se baseia o poder: manter a narrativa que lhe convém e convencer a opinião pública que a sua versão é a verdadeira. Uma trabalheira!

Por isso é que no Manual do Cidadão comum, ajuizado e prevenido, consta o seguinte: Nunca subestimar a capacidade do tecnocrata manipular a opinião pública.

E também: Nunca subestimar a motivação do tecnocrata de se manter no poder. Porque é o poder que o estrutura e justifica. O poder é a sua razão de existir. O que seria de um tecnocrata sem o poder? Murchava...

 

John Silva sabia, olhando para o cidadão comum, e para os professores que tinham saído para a rua, que a revolta é uma reacção básica e que geralmente leva ao desânimo e à desistência. E também sabia que a rebeldia, embora mais construtiva e criativa e um passo fundamental para a construção de uma verdadeira autonomia, ainda não era a resposta adequada e eficaz face à linguagem do poder.

Mas era a resposta possível à época.

Os cidadãos comuns - e, neste caso, os professores -, já tinham atingido aquele ponto de exaustão e desespero e viam-se sozinhos e entregues a si próprios, a ter de manter a disciplina na aula (o que já não era fácil), a estabilidade escolar e a qualidade do ensino. Os professores, além dessa tarefa hercúlea, passaram ainda a ser massacrados com exigências perversas para colaborar na "ficção do sucesso" medido em estatísticas.

O tecnocrata não se interessa por pessoas. Só os números contam.

 

John Silva achava tudo isto muito estranho...

Um professor não era um administrativo. As suas funções não deviam ser burocráticas. Mas a categoria "titular" parecia indicar isso mesmo, que o que era valorizado era o exercício de cargos de gestão e não ensinar! Muito, muito estranho...

 

Quando quase todos os professores saem à rua, só pode ser um mau sinal...

E mesmo depois de terem saído à rua por duas vezes, parecia não ter sido o suficiente para abrir os olhos dos responsáveis políticos e sensibilizar as suas mentes fechadas. Simplesmente, não tinha sido suficiente...

 

Sair de novo à rua, como tinham previsto as associações de professores independentes, depois daquele episódio sintomático da agitação escolar e da indisciplina de muitos dos alunos que os professores têm de passar administrativamente para receberem um diploma (e que envolveu uma chuva de ovos), será uma tentação para o poder em exercício tentar colocar a opinião pública contra os professores.

 

John Silva suspirou. Tempos estranhos e agitados pedem bom senso e sentido de responsabilidade.

Depois da revolta e da rebeldia, o primeiro passo para a construção de uma verdadeira autonomia: reunir para reflectir em conjunto.

Já sabiam que, no grande grupo, estavam juntos. Havia uma ideia a uni-los: a defesa da qualidade do ensino. A defesa da escola pública. A defesa das suas funções profissionais, pedagógicas e não administrativas. Avaliação sim, mas séria e credível.

 

Sim, entregues a si próprios mas unidos por um propósito e objectivos comuns.

 

 

publicado às 15:59

Os estilhaços da ficção deixam a descoberto a loucura tecnocrata

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 10.11.08

John Silva estava fascinado com aquela marcha de professores pelas ruas da capital do país dos seus antepassados. Bandeiras, cartazes, risos e abraços, até lágrimas! Interpretou aquela emoção partilhada como uma forma de reduzir a ansiedade e o stress acumulados. Mas também de encontrar, no grande grupo, a empatia, os laços, que se estavam a desfazer no pequeno grupo-escola.

O que teria levado todas aquelas pessoas a deslocar-se até ali e a percorrer em conjunto alguns quilómetros daquela cidade poética? E porque se teria chegado àquele ponto de ruptura?

 

John Silva também achou interessante a reacção do outro lado da barricada. A Chefe que pomposamente se referia a si própria na 3ª pessoa do singular, "a Ministra da Educação", afirmava na televisão a sua razão... que tem de continuar... que é o único modelo... não há outro disponível... que demorou dois anos a ser preparado e melhorado... que a Ministra não cede a chantagens em ano de eleições...

John Silva sorriu. Quem é que quereria contar com esta ministra? Querem é vê-la pelas costas! Modelos únicos? Onde é que já vira aquele filme?

E como era possível, alguém tão incompetente que não conseguia sequer gerir os seus recursos humanos, continuar com aquele discurso da culpa ser da resistência à avaliação?

Se gerir recursos humanos fosse destruir o seu estatuto, funções profissionais, auto-estima, auto-confiança e a estabilidade do ambiente escolar, e atafulhá-los de papelada inútil, teria tido, ela mesma, Excelente. Só que gerir recursos humanos era outra coisa.

John Silva fixou o olho vivo do jornalista que, no final da entrevista à Chefe, olhou para a câmara com um ar estupefacto, como se dissesse: Viram como eu tentei tudo? Não há hipótese...

As palavras negociar e disponível soavam, na boca da tecnocrata, ao maior artifício. Alguém assim, pensou John Silva, é incapaz de negociar ou estar disponível seja para o que for. Alguém assim está fechado em si próprio e quer impor a sua razão. Mesmo contra 120.000 professores na rua...

 

Os estilhaços da ficção começavam a revelar a loucura tecnocrata. Mas também o ódio, a emoção que os move.

John Silva fixou de novo a imagem da Chefe, no écran. Sim, era ódio, inequivocamente.

Tempos estranhos se avizinhavam, portanto.

É que a linguagem do poder tem as suas munições: pressão, intimidação, dividir para reinar, espionagem e delação.

A espionagem e a delação era o pior. E naquele pequeno país dos seus antepassados John Silva sabia, pelas suas viagens com o Simulador, como tudo isto ainda estava ao alcance dos tecnocratas no poder. Um dos terríveis tiques (ou traços, o que seria pior!), que mais o desgostava. A competição desleal tinha sido possível porque esse tique (ou traço) ainda lá estava.

 

John Silva interrompeu aqui a mensagem. Talvez tenha ficado a reflectir... Aquela marcha de professores impressionou-o mais do que estaria à espera. Aguardo, pois, nova comunicação.

 

publicado às 12:21

A ficção nacional e o melodrama governamental (cont)

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 07.11.08

É com enorme prazer que leio as mensagens que me vão chegando de John Silva, através do Simulador que as descodifica para a linguagem actual. É que, pelo estilo, e do que vou conseguindo apreender, vejo que John Silva leu algum autores da nossa época. Vislumbro ali Jorge Luís Borges, no gosto por se meter em labirintos e projectar várias saídas (e entradas). Saramago também, na tentativa de decifrar os sinais que lhe vão surgindo. E, na ironia, Thomas Bernhard, o demolidor. Estamos em família, portanto.

 

A sequência da mensagem que correspondia a mais um capítulo do seu ensaio sobre a cultura portucalense nesta época de transição lá chegou, devidamente descodificada.

 

Íamos naquela parte da incrível ingenuidade e credulidade do cidadão comum.

Na ficção nacional, na informação para consumo de massas.

Ora nada disto teria passado por um filtro minimamente exigente, mas passou...

 

As pessoas aceitaram o inaceitável e toleraram o intolerável.

E quando se deram conta já era tarde. As suas vidinhas tinham sido geridas e programadaspor outros. Já pouco espaço-tempo tinham para decidir ou escolher. Estavam já demasiado ocupadas, diria mesmo, absorvidas, na simples tarefa de sobreviver.

 

Como aquela de, repentinemente, tudo o que diz um economista prémio Nobel passar a ser lei! Como outros oportunos pretextos, vários sinais e vários sintomas que John Silva identificou como os verdadeiros obstáculos à recuperação natural das economias.

Desde quando estes políticos estavam à altura dos acontecimentos?

E ninguém viu isso?

Que estranho...

 

Mas tratava-se de uma época de transição. E de mudanças, grandes mudanças. Para uma nova atitude, uma nova postura, uma nova cultura política.

 

Era com alguma tristeza (sentimento quase extinto no tempo-espaço do nosso luso-descendente), que John Silva analisava os registos dessa época.

E pensar que todos os sinais já estavam lá. Era só ler e decifrar.

Apetecia-lhe abaná-los a todos até conseguir uma qualquer reacção! Essa ideia começou, aliás, a obcecá-lo. E se... o Simulador que o levava com tanta fidelidade a épocas anteriores, e com mais fidelidade ainda a partir do início do séc. XXI, pudesse ser preparado e aperfeiçoado, até conseguir transportá-lo a ele, já que conseguia enviar as suas mensagens com algum sucesso? 

 

 

publicado às 12:19

A ficção nacional e o melodrama governamental

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 05.11.08

Este título pomposo pertence a mais um dos capítulos do ensaio de John Silva sobre a cultura portucalense, lugar de origem dos seus antepassados. Para alinhavar este ensaio, John Silva sintonizou o Simulador para a época de transição, muito próxima das eleições presidenciais daquele "império" que até então tinha tido um papel fundamental em toda a civilização dita moderna.

 

Tudo estava em evolução, as mentalidades, as atitudes, os valores, e só os governos da altura pareciam não ter consciência disso... Aquela eleição, por exemplo, tão longa e intensa, e que até tinha dado origem a uma colagem do nome "Plumber" à linhagem do amigo, tinha um significado simbólico. E fora, sem dúvida, o grande acontecimento do início do séc. XXI.

 

O mais interessante de observar, pelo menos na perspectiva do nosso luso-descendente, era precisamente isso: que a mudança se iniciara nas pessoas simples, no cidadão comum, e não nos governantes, na sua política. Essa estranha época de transição revelava esse hiato. Agora percebia melhor porque é que o cidadão comum tinha reagido tão favoravelmente, com paixão até, à palavra mudança.

 

O "império" tinha percebido esse movimento. E aquele estranho país que o fascinava, as suas origens remotas?

 

Aqui, John Silva fixou a sua atenção na forma como o governo da época lidou com todos os imponderáveis. E como, através do melodrama (modo dramatizado de utilizar o "marketing político, a publicidade, tratamento de imagem, tratamento de informação, etc.) tinha levado os cidadãos a acreditar em tudo. A acreditar na sua eficácia, em primeiro lugar; na sua capacidade de gerir, em segundo lugar; na sua sensatez e sentido de responsabilidade.

 

John Silva estava verdadeiramente fascinado com aquela incrível ingenuidade e credulidade do cidadão comum portucalense, nessa época de transição. Sentiu uma simpatia enorme, fraterna, quase física, por toda essa gente que, de uma forma ou de outra, se tinha deixado iludir e alienar pelos guiões mal amanhados que lhe impingiram. Produtos de tão fraca qualidade, a começar por muita da informação para consumo de massas e outros produtos de ficção nacional.

 

Quanto a mim, fico à espera da descodificação do resto da mensagem do nosso luso-descendente. Por lapso, só me chegou metade... nem o seu Simulador, que é  tão sensível, é infalível.

 

publicado às 11:33


Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.


Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2011
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2010
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2009
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2008
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2007
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D